terça-feira, 2 de outubro de 2012

(Nao) Procura-se


(Não) Procura-se um amor que não só goste de cachorros como de suas babas e unhas pontudas. Que não tente me segurar enquanto eu danço. Que não me incomode pelos sapatos que uso. Eles serão, sim, sempre os mais confortáveis.

(Não) Procura-se um amor que não se apavore com a quantidade de tatuagens que quero fazer – todas elas nunca acontecerão, eu acho que garanto. Que não tire com a minha cara se eu deixar passar uma atacante ou por acaso acertar a trave.

(Não) Procura-se um amor que me acompanhe na cerveja Weiss e que me agrade com balas de minhocas, dentaduras e ursinhos. Que saiba mexer no meu cabelo de uma forma que eu não pareça um Golden Retriever depois.

(Não) Procura-se um amor que entenda eu ter esquecido de colocar brincos pra ir no casamento ou não ter provado meu vestido de formatura até a véspera. Que me mime, apesar de eu parecer bronca e durona.

(Não) Procura-se um amor que reclame dos meus roxos de luta, mas que fique orgulhoso de saber o quanto isso me faz feliz. Que entenda que eu durma vendo os jogos da Seleção. Ou do Inter. Ou de qualquer outro que me dê vontade.

(Não) Procura-se um amor que não fique brabo se eu um dia beber até trocar as pernas e chamar os amigos recém feitos para dançar. Que não fique brabo quando eu roubar o último gole da água com gás ou o último pedaço da corn and bacon.

(Não) Procura-se um amor que saiba os autores que eu gosto, os cheiros que eu gosto, as cores que eu gosto, os toques que eu gosto. Que queira ver zumbis e depois uma comédia romântica ou filme com cachorros.

(Não) Procura-se um amor que não desmaie ao ver sangue. Que dê importância aos meus machucados. Que queira ser meu sparring – não te preocupe, eu não te bato, porque sei que tudo que vai, volta. Que saiba que tudo que vai, volta.

(Não) Procura-se um amor que goste daquela tia chata. Que queira estar com a minha família no churrasco de domingo e queira me levar para aquele aniversário no interior. Que aguente meu avô contando suas histórias de ginasta ou do meu parente defendendo o Acre.

(Não) Procura-se um amor que me queira como eu sou, como eu fui e como posso vir a ser. Que não tente me mudar de uma forma tão explícita. Que não me diga como eu deveria ser. Que não me compare comigo.

(Não) Procura-se um amor.

Não, procura-se.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Olho o mapa da cidade
Como quem examinasse
A anatomia de um corpo...
(É nem que fosse o meu corpo!)

Sinto uma dor infinita
Das ruas de Porto Alegre
Onde jamais passarei...

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Descuido.

Talles andava distraído. Não prestava mais atenção, não se fazia mais presente, parecia invisível. Não falava, não dava opinião, não aparecia. Parecia fora de si.
Ela notou.
Chamou ele em um canto e disse:
- Talles, o que tu tens?
- Não sei, professora. Ando meio distraído.
- Talles, acorda pra vida. A gente precisa de ti.
- Pode deixar, professora. Semana que vem eu já tô legal.
Em um trabalho de aula, se formou o grupo "5 e meio". Talles era o meio. Talles não estava lá por completo.
Na saída da aula, ela parou na frente de Talles, ainda sentado na classe, apertou seu rosto com carinho e encostou sua testa na dele.
- Fica conosco, Talles.

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Talles morreu na semana seguinte. Era carona em um acidente de carro em que morreram duas pessoas. Ele, descuidado da vida, desatento, parou de prestar atenção em si.


Na outra segunda-feira, o grupo Meio se apresentou em frente à classe.
E ela chorou. Como em poucas vezes havia feito.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Caramba...

Já tá na hora?

Mas nem deu tempo de nada...

... Nem consegui pintar as unhas de roxo nem pular na cama até encostar no céu nem comer ovos de páscoa sujando o tênis, a boca e os cabelos nem me pendurar no balanço de pneu que tinha na árvore de casa nem andar nas linhas formadas pelas lajotas das calçadas do bairro nem perder dentes de leite comendo milho nem sentar no colo da vó, que cheirava a baunilha nem cortar a franja no banheiro com tesoura de serrinha nem raspar o Danoninho com o dedo nem cochilar no sofá da sala enquanto via tevê nem abraçar por alguns minutos o cachorro ainda molhado no pátio nem ouvir o choro da minha prima ao acordar com fome nem cair de bicicleta no paralelepípedo nem tomar aspirina escondido da mãe nem tomar guaraná de canudinho nem desenhar fora dos contornos...

... Não deu tempo de rasgar a calça velha nem de passar no vestibular nem de fazer novos amigos nem de namorar duas, três, onze vezes nem de montar uma banda de pagode nem de montar uma de heavy metal nem de pintar o olho com rímel transparente nem de aprender a dirigir sem as mãos nem de quebrar a cara contra o muro nem de ter espinhas nem de fazer as unhas do pé nem de comer comida mexicana nem de escrever poemas em noites insones nem de tomar um porre de cachaça barata nem de ganhar meu segundo salário nem de gastar meu primeiro nem de xingar meu pai nem de fugir de casa...

... E nem casei nem tive filhos nem fiz um aborto nem perdi o emprego nem fui promovida nem comprei minha casa nem paguei o aluguel nem operei a coluna, a bacia e o braço nem tive surtos megalomaníacos nem crises da meia idade nem vi meus amigos morrerem de velhos nem percebi minhas pálpebras cairem por sobre meus olhos nem meus cabelos pularem da minha cabeça nem os sinais da pele aumentarem nem fui chamada de vó nem coloquei naftalina nos armários nem ofereci chá com bolachas às minhas amigas nem tive grupos de carteado nem fiz meu testamento...

... E já é hora de ir?

terça-feira, 17 de março de 2009

Acabou.

Ele virou de lado na cama, passou os dedos pela cintura dela e falou, baixinho, no ouvido.
- Acabou.
Como assim, acabou? Já são treze anos de casados! Dois filhos, casa em Gramado, conta conjunta, viagem de férias pra Torres programada e acabou?
- Acabou.
Ele se levantou e começou a vestir as calças de brim. Abotoou a camisa, deu nó na gravata, calçou os sapatos.
-Sou eu. Só pode ser eu. Me diz. Que eu fiz? O que eu mudo? Rubens, não sai assim. Rubens, tua gravata tá torta. Rubens, olha pra mim. Diz que não vai. Me alcança a minha camisola. Rubens. Ru. Binho. Olha pra mim.
- Onde tá a minha raquete?
- No closet. Rubens. Eu vou me matar, Rubens. Tu vais deixar o Lucio e a Izinha sozinhos? Rubens. To falando contigo.
- Maria Lucia. Acabou.
A mala estava fechada em cima da cama e ele procurava as chaves na cestinha da mesa de cabeceira.
- Nunca acho essas chaves. Não adiantou nada colocar esse sensor para palmas.
Clap. Clap.
- Tão aqui, de baixo da cama.
Clap. Clap
- Rubens, vou me jogar da janela. Olha pra mim, Binho. Sou eu, né? Me diz, Binho. Ali, ó. As tuas meias ficaram no chão. Rubens. Amor.
Eles se olham, em silêncio.

....

- Sabe que mais? Então vai. Vai que eu não te mereço, infeliz. Eu, aqui, chorando por ti, pensando em me enforcar no fio do varal, por ti. Pensado em deixar os meus filhos na mão de qualquer porca que tu fores encontrar. Nunca, Rubens. Nunca. Vais ter que conviver com a minha presença. E a minha indiferença. Cretino filho da puta.
- Ok.
- Ok?
- É. Ok.
- Mas...
- Mas?
- Ok?
- Sim. Ok.
Bateu a porta e saiu, com os gritos de Maria Lucia ao fundo.

...

Cinco minutos depois voltou. Maria Lucia tinha a maquiagem borrada e a cara inchada.
- E então? Fui bem??
- Foi sim, Binho. Mas semana que vem sou eu que vou embora, tá?
- Tá bom... Adorei a parte das palmas. (Clap. Clap.)
- Que bom. Agora vem aqui.



segunda-feira, 16 de março de 2009

Segunda

Parece que todos os dias são segunda-feira.
Que não teve final de semana, não vi nem o sábado nem o domingo passarem e já acordei na manhã de segunda, sem ter tido tempo de nada.
Não dormi até tarde, não fui na Redenção, não vi meus amigos ou fiquei com a família. Não aproveitei a noite nem o dia. Mal o vi sol, mal senti o vento, mal me molhei na chuva! Nem bati na quina da cama! Ou bati? Não lembro... já faz tanto tempo. Hoje já é segunda. Hoje ainda é segunda.

Esse tempo tem me feito falta.
Daqui a algum tempo, esse tempo vai fazer é uma falta danada.
Eu sei.

terça-feira, 3 de março de 2009

Já faz horas que não visito esse lugar. Que antes me era tão conhecido e aconchegante. Confortante.
E que agora virou sótão com lençóis brancos por cima dos móveis e poeira espalhada pelo chão. Fazia tempo que não me via assim.
Sozinha. Não só.
Já se vão anos que a companhia de outros me faz companhia.
Agora tenho a mim para me acompanhar.
Coração leve. Solto. Calmo. Aberto. Feliz.
Cheio.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Mini

Posso dizer que nunca fui pequena. Uma criança que nasce com 4 kg não pode ser considerada um bebê de gente. Era mais para um repolho.

Aí cresci mais.

Sempre fui uma das maiores da turma. Pé-de-princesa tamanho 38. Ombros largos por causa da natação desde o nascimento. Pernas e braços compridos. 1,70 de altura e mãos de pianista.

Aí cresci mais.

Aí cresci por dentro.
Aí virei eu.
Aí, vi que valia a pena.
Aí deu.
Nunca achei que fosse ter olheiras.
Não sou insone ou boemia.
Elas agora me perseguem.
Para onde quer que eu mire,
sinto o peso da responsabilidade no olhar.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Stand by.

(em tom de desabafo)

Me mantive por muito tempo em espera. Em stand by. Com a luzinha vermelha piscando. Sem a menor vontade de movimentação. Física e mental.

Aí me veio aquele velho e conhecido estalo. De que era preciso fazer alguma coisa ou não ia dar certo. Já vinha passando por um momento muito complicado. Nunca achei que pudesse me estressar. Pra mim, isso é coisa ou de gente chique ou de frequentador de terapeuta ou de workaholic.
Ou seja, não o meu caso.

Precisava me mexer. Sacodir o tapete para conseguir colocar a casa em ordem.

Comecei cortando cabelo. Puxei de um lado para o outro na pia do banheiro e picotei. Picotei afu. Cortei de cima pra baixo, de um lado para o outro, sorrindo ao ver cada melena cair com gosto na toalha estendida no balcão de mármore. Me olhei no espelho. Ainda era eu, vou ser sempre eu, mas com um ar mais leve.

Voltei para a musculação. Precisava recuperar meu ânimo, meu fôlego, meu corpo. Precisava redescobrir certos músculos que tinha esquecido que existiam. Precisava me sentir bem. Não importava o que os outros diziam. Queria me olhar e me reconhecer.

Deixei de me importar tanto. Cansei de me incomodar e me estressar com o trabalho, as aulas e as pessoas.

Passei a festejar mais as coisas. Coisas. O chão, o vento, o sol, a flor, a cama. Coisas mesmo. Tentar me focar no meu amor não só por quens, mas também por quês. Tentei ouvir a minha tia, que tanto festeja tudo.

Comecei também a levar mais em conta o meu amor pelas pessoas. Amigos, namorado, família, desconhecidos. Nunca fui muito emotiva, sentimental ou amorosa. Como já disse anteriormente, não consigo abraçar com os dois braços. Mas venho tentando transmitir meus sentimentos.

Já consigo me sentir melhor. Seja pelo cabelo novo, pelo biceps que teima em reaparecer ou por aqueles a quem consegui demostramar.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Ela.

Tenho tentado me convencer de certas coisas.
Por exemplo?
De que há a remota possibilidade
De eu ser mulher.
(Não. A sexualidade não está em questão.)

Ela sempre foi cheirosa
Ela sempre teve cabelos bem tratados
Ela sempre usou batom
Ela sempre foi séria
Ela sempre usou salto
Ela sempre sorriu delicadamente
Ela sempre vestiu roupas justas e alegres
Ela sempre falou de coisas interessantes
Ela sempre exalou charme
Ela sempre caminhou flutuando
Ela sempre usou brincos, colares e pulseiras
Ela sempre teve gestos leves
Ela sempre atraiu atenções
Ela sempre foi comedida
Ela sempre foi ela.

Mas, agora...
Já não sei mais.
Não sei se eu,
mesmo sendo o oposto,
o contrário, o reflexo,
não posso ser ela.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Cidadão de Papelão

(O Teatro Mágico)
O cara que catava papelão pediu
Um pingado quente, em maus lençóis, nem voz
Nem terno, nem tampouco ternura
À margem de toda rua, sem identificação, sei não
Um homem de pedra, de pó, de pé no chão
De pé na cova, sem vocação, sem convicção
À margem de toda candura
À margem de toda candura
Cria a dor, cria e atura
Cria a dor, cria e atura
Um cara, um papo, um sopapo, um papelão
O cara que catava papelão pediu
Um pingado quente, em maus lençóis, à sós
Nem farda, sem tampouco fartura
Sem papel, sem assinatura
Se reciclando vai, se vai
À margem de toda candura
À margem de toda candura
Não habita, se habitua
Não habita, se habitua
Homem de pedra, de pó, de pé no chão

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Se vá.

É de lágrima que meu coração se vai.
Vai em partes para cada lado. Se divide em pequenos pedaços de amor.
Uns pedaços voltam logo para casa. Outros, não. Eles ficam ainda longe por ainda tempos.
E se vão os braços, os cabelos, os olhos, as roupas e, por que não, o coração.
Corações já pequenininhos de saudade, expremidos até doer.
Doer de quem amanhã já chega,
Doer daqueles que foram e não sabem se um dia voltam,
Doer daqueles que se deixaram ir.
Todas estas minhas.
Eu, dolorida.
Dormente.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Tenho um perseguidor.

Uma sombra. Que me segue a todo lugar que vou.
Sombra de carne e ossos e suiças e barba rala.
Entro em pânico quando noto a presença dele.
Porque ele me segue. Incessantemente.

Encontro-o entre 40 mil pessoas. Duas vezes.
Sempre, na parada do ônibus.
No shopping, no supermercado, no hospital,
na rua, no bar, no bar, na rua de novo.

Esses dias, descobri seu nome. E tentei não esquecer.
Parece que ele queria que eu soubesse
Sentou atrás de mim no ônibus
e, falando ao celular, soletrou.
S-O-L-E-T-R-O-U
Para mim.

Já achei diversas ligações entre nós
E já não sei mais
quem persegue quem.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Ogra.

Não adianta. Eu não tenho o jeito da coisa.

Não sou meiga. Não sou fofucha. Muito menos um amor.
Não consigo usar o abre-e-fecha fácil da Lacta.
Não sei abrir nem Halls nem Clube Social pela listrinha vermelha.
Não consigo beber nada sem me derrubar.

Só como carne mugindo e fugindo de mim.
Sou zagueira.

Não tenho paciência para o telefone.
Não consigo dar explicações sem trincar os dentes.
Não tiro os nós dos sapatos.
Não uso roupas passadas.

Acordo e ponho as mesmas meias de ontem.
Escovo os dentes com vigor.

Não penteio os cabelos há quatro anos.
Não sei me maquiar.
Não uso cores vivas.
Não dou abraços com os dois braços.

Meu namorado reclama que eu só machuco ele.
Estralo os dedos sem parar.

As vezes acho que fui encontrada em uma gruta,
em meio a ossos e pedras.
Eu, a menina ogra.

sábado, 21 de junho de 2008

Ah, o Centro.

Ah, o Centro.
Como moradora do Menino Deus, nunca tive a oportunidade de andar pelas ruas de meu bairro e esbarrar em pessoas diferentes a cada esquina. São índios, loiros, morenos, ruivos, calvos, grisalhos, negros, albinos, crianças, idosos, gente sem idade definida, pedintes, compro-ouro-corto-cabelos, mágicos, prostitutas, malabaristas. É isso que aprecio no Centro: os encontros. Andar nas ruas, esbarrando, esquivando, contorcendo para fugir dos apressados, olhando, sempre, a todos. Ver seus olhos cansados, a fumaça saindo da boca, os braços estendidos entregando panfletos, os corpos enrolados em jornais no chão, as crianças tocando violas acompanhadas por gaiteiros já passados da validade.

Ah, o Centro.
Nos dias de hoje, em que todos fugimos do contato humano apelando para o mundo cibernético, o Centro permanece como último remanescente da humanidade. É lá que todos trocam toques e carinhos apressados e sem compromisso. Onde algumas pessoas voltam a sentir-se amadas, pedem desculpas pela diminuta relação que tiveram e seguem em frente, um pouco mais felizes. Um pouco mais aquecidas. São pequenos esbarros, pequenos pegares de mãos, pequenos chutes nos tendões de Aquiles, mas que fazem toda a diferença para os carentes da cidade.

Ah, o Centro.
Andradas, Sete de Setembro, Duque de Caxias, Borges de Medeiros. Lombas e planos. Tenho uma estranha atração pelas ruas do Centro. Os calçamentos, as árvores, as mesas de damas, os colares e brincos expostos, os passantes e os estáticos. Enquanto atravesso o Centro, meus olhos vão captando as belezas escondidas e as sutilezas imperceptíveis aos apressados.

Ah, o Centro.
Outra peculiar alegria minha são os dias de chuva. Literalmente, chove de baixo para cima, de cima para baixo, de todos os lados para lado algum. É aí que entram os guarda-chuvas. Coloridos, pretos, transparentes, gigantes, médios e pequenos, frágeis e firmes, todos amontoados formando um descompassado tapete que cobre as ruas. O Centro vira carnaval e a cidade desfila pelas avenidas.

Ah, o Centro.

* Artigo publicado no Jornal do Centro

A estrela solitária - Leo e o Fogão

O time do Botafogo entrou em campo.

Leo tem os cabelos curtos. Para o lado. Uma cicatriz no lado direito do rosto, fruto de pontos mal feitos por uma enfermeira iniciante após uma cirurgia. Não usa tênis ou chinelos, apenas sapatos. Sapatos pretos, sociais. Pretos gastos, puídos, quase nunca novos. Às vezes troca por sapatos de camurça, verde musgo. Mas gosta mesmo é dos pretos. Usa blusões de lã e é pouco extravagante: opta sempre pelo marrom ou bege ou verde ou creme ou por sua companheira camisa do Botafogo. Não sente muito frio. Costuma usar somente os blusões e uma camiseta por baixo. Diz que seu casaco está com a ex-namorada. O carioca já se acostumou com o clima do sul. Veio do Rio de Janeiro, capital. Sempre morou em capital. Até na hora de trocar de casa, as opções ficaram entre Curitiba e Porto Alegre. Optou pela capital gaúcha. Diz que Curitiba é muito certinha. “Lá todos os relógios marcam a mesma hora.” Realmente. Como morar em uma cidade dessas?

Renan, Renato Silva, Leandro Guerreiro – “Esse aí se criou no Inter” - e Bruno Costa; Alessandro, Túlio, Diguinho, Lucio Flávio e Zé Carlos; Jorge Henrique e Fábio – “Esse Fábio é bom”.

Algumas pessoas acham estranho ver um cara na faculdade sempre encostado na mesma janela do saguão, sozinho, e com sua camiseta do Botafogo. Quando era pequeno, no Rio, foi expulso do colégio por pensarem que era um projeto de serial killer. Ele realmente tem esse perfil. É quieto, fala pouco, poderia ter matado sua própria mãe no dia das mães. Mas não. Preferiu matar o tempo e se mudar para Porto Alegre. Tentado pelas belas gaúchas e cansado da feiúra das cariocas, Leo, na época chamado de Ronnie – fruto de uma grotesca comparação com Ronnie Von – fingiu uma terrível depressão e veio continuar os estudos de história. De saco cheio de formar grupos com freiras, deficientes físicos e retardados, decidiu trocar de curso. “Não estava em sintonia com o grupo, em todos os sentidos. Até locomotores. Deus ta olhando tudo... Vai me dar um filho com Down. Mas eu não me importo”. Passou na segunda tentativa para o curso de jornalismo. E lá onde se encontra até hoje. Não faz o menor tipo de jornalista medíocre. Não gosta de seguir a maldita pirâmide invertida ou inventar um tosco lead. É um cara criativo e de escrita explosiva. Gosta mesmo é da liberdade. Poder escrever do jeito que quiser, sem ter um editor chato lhe cortando as asas. É até por isso que não consegue se imaginar atuando no jornalismo. A empresa deverá ser muito estranha para deixá-lo publicar as coisas do seu próprio jeito. É uma personalidade em falta no jornalismo.

Gol!Ah.. Putaquepariu... É muito azarado esse Botafogo”!

Em sua casa, é observado por dois Roberto Carlos em diferentes fases. Bonecos espalhados pelas estantes fazem o papel de mãe. Sua geladeira, sempre vazia, mostra que o rapaz mora sozinho. A mãe vive em Porto Alegre, mas ele não agüentaria dividir o apartamento com ela. Morando sozinho, teve que aprender a comer qualquer coisa. Se tem alguma coisa na geladeira, ele come. Não importa o que seja. “Só não como aquilo que eu realmente não gosto, como dobradinha e pirão”. As roupas espalhadas pelas cadeiras também mostram que o rapaz que só comia pratos de criança – bife, batatas fritas, arroz e feijão - ainda não se acostumou à vida de gente grande.

Esse Gaciba tem uma cara de nazista...

Leo é um homem intenso. Se apaixona e desapaixona com uma facilidade enorme. Um dia é uma bonitinha do segundo semestre que é um charme. No outro, é uma loirinha com uma voz bonita. Depois, é Ângela Carne Osso, dos filmes de Sganzerla. Aí vem aquela ruiva, de cabelo curtinho, que ele viu dançando em uma festa. Adora os óculos e o jeito de caminhar da baixinha do sétimo semestre. “Descobre pra mim se ela é burra”. “As portas são as melhores”. Mas, logo, logo, já se desapaixona por todas. E não é apaixonado por mais ninguém.

Já deram duas bolas na trave.

Ele tem como sobrenome um dos mais tradicionais bairros de Porto Alegre, embora frise que é com ême e tudo junto. Mora na Cidade Baixa, quase no Centro. Não é muito fã de passeios ao ar livre. Prefere ficar em casa vendo filmes ou ir ao cinema. Por falar em cinema, é o mais novo curador das mostras de Porto Alegre. Louco por cinema brasileiro, Leo organizou uma mostra de cinema marginal, com filmes da década de 70, muitos nunca exibidos. Tem ido a todas as sessões, mesmo àquelas que já assistiu. Milhares de vezes. O que mais gostou foi Hitler III Mundo. Leo tem um encanto por filmes estranhos. A sua casa é repleta de livros de cinema, com Trouffaut e Godard o olhando de cima a baixo, na prateleira.

Falta! Cartão! Dá vermelho logo!

Leo é músico. Toca guitarra. Obviamente, na guitarra dele tem o brasão do Botafogo. Em um show, enquanto tocavam a trilha de um filme, uma corda da querida Giannini se rompeu. No meio da música. A última do show. Leo não pensou duas vezes. Quebrou a guitarra em mil pedaços, no chão do palco. E, como um bom rock star, jogou para o público. Em um acesso alucinante promovido pela música, Leo foi contra toda sua vida de não-violência e destruiu a pobre Giannini no duro chão da fama. Ficou com o corpo da guitarra. Expõe na parede de casa. O braço da guitarra, para sua surpresa, foi pego por uma amiga – eu – que guarda até hoje a lembrança do inesquecível show. “Achei que um imbecil ia pegar”.

Beleza! Vai pro contra-ataque!

Bomfim tem amigos peculiares. Plato é um deles. Plato Divorak. É nome artístico, claro. Mas virou nome próprio. É o vocalista da banda de Leo. É com ele que Leo passa os mais inacreditáveis momentos. O interessante é o senso de humor que Leo tem quando com ele. Plato é ingênuo e Leo aproveita a situação mentindo absolutamente tudo. Mas eles se amam. Plato também é sacana. Coloca Leo nas maiores enrascadas, como acompanhá-lo em um puteiro barato. Leo também se deu muito bem com os chineses. Todos que já passaram pela Famecos. Ano passado, fez amizade com Paulo. Paulo ensinava palavrões em chinês para Leo. Tsau Ni Má. Leo ensinava em português. E todos se sacaneavam mutuamente. Atualmente, há novos chineses na Famecos. Eles já deram um apelido chinês a Leo: Sai Chau. O problema é que na China cada palavra é diferente dependendo da entonação. Leo nunca vai saber o que significa. E o chineses riem toda vez que o chamam. Mas não importa. Ele adora os chineses. E o Tibet que se dane.

Golaço! Putaquepariu...

Leo é meio duro nos movimentos. Não costuma encostar nas pessoas quando as cumprimenta. Os abraços são de longe. Está sempre mexendo no cabelo. Arrumando um cabelo eternamente bagunçado, até porque é a ex-namorada que corta o cabelo dele. Não olha muito nos olhos das pessoas. Não tirou o olhar da televisão, nem no intervalo do jogo. Também não muda o tom da voz. Costuma falar sempre na mesma calma, não importa o tema. Nunca se exalta. Sempre tira sarro das coisas, principalmente daqueles que conhece. Ele e seu amigo Rafa são exímios tiradores de sarro sem que os outros consigam percebem que estão sendo sacaneados.

Já vi que vai ser difícil sair gol.

Aos 28 minutos do segundo tempo, começou a sacudir e batucar os pés. Estava inquieto. O Botafogo jogava muito mal e tomava um sufoco do Atlético Mineiro. O que é realmente preocupante. Mas Leo não se importa muito. Não se enerva. Torce quieto, dizendo as vezes poucas palavras de irritação. Somente quando o Fogão perdeu um gol feito que Leo disse baixo um putaquepariu e bateu nas pernas, com raiva. E só. Estranho, vindo de um botafoguense que foi até o Maracanã no fim de semana somente para ver a final do carioca. E que queria estar no Rio na quinta-feira, depois da eliminação do Flamengo, só para tirar com a cara dos flamenguistas. Leo é um pouco controverso. É o cara quieto, na dele, mas que, quando tem a oportunidade, rasga todas as formalidades e não dispensa uma boa piada. É uma figura peculiar. Ouve músicas estranhas, vê filmes estranhos, torce por um time estranho. Mas, no fundo, no fundo, é um guri bom. Bem bom.

Fim da partida no Mineirão. 0 a 0. O jogo de volta, no Maracanã, é decisivo. Quem ganhar está classificado para a próxima fase da Copa do Brasil. Os jogadores trocam de camisa, trocam apertos de mão. É o Fogão e o Galo tentando a classificação. Vem pro Rio, Leonardo!

sábado, 7 de junho de 2008

A espuma


Oto tinha fendas branquiais. Fendas branquiais, nos mamíferos, seriam as brânquias dos peixes que, no processo embrionário humano, se fecham e se transformam nas trompas de Eustáquio. Mas isso não vem ao caso. Oto tinha fendas branquiais. Quando embrião, seu aparelho respiratório primitivo não se degenerou e criou as fendas que atualmente possui atrás das orelhas. Ninguém nunca soube de suas fendas. Sempre as escondeu com os cabelos longos. Mas sempre soube que não pertencia a este mundo. No colégio, queria saber mais sobre os animais aquáticos. Sobre peixes, arraias, tubarões, tintureiras. Achava fantástico o poder de respirarem de baixo d’água. Não sabia ao certo quais as limitações de suas fendas. Não sabia se, por acaso, caísse n’água, poderia respirar. Oto não sabia nadar. Sempre teve medo de entrar em piscinas ou no mar, com medo de que algo de estranho pudesse acontecer. Trabalhava em um escritório de advocacia, no centro da cidade, longe de tudo aquilo que acreditava pertencer. Oto nunca viu o mar. Não sabia a cor, o cheiro, o toque salgado. Também nunca teve vontade de conhecer. Sempre teve medo do tamanho do oceano.
Um dia, sentado em sua mesa, levantou abruptamente, pegou seu casaco e saiu pela porta de vidro. Entrou no elevador, desceu os quatorze andares que o separavam do térreo e cruzou o estacionamento. Destrancou seu Escorte Azul 92, entrou e parou. Colocou as mãos no volante e abaixou a cabeça. Puxou o espelho retrovisor e se olhou. Olhou os olhos cansados, os lábios secos, a garganta ardida. Precisava beber. Apertou o botão da porta da garagem e saiu vagarosamente. Rodou até o bar mais próximo, na esquina. Não poderia ir andando, suas pernas não o agüentariam. Levantou-se do banco de couro puído e foi até o Boteco Bill. Pediu uma purinha, branquinha, em copo baixo, sabor tangerina. Engoliu de uma botada só. Pediu outra. Agora sabor pitanga. Outra, de menta. “Agora me vê da pura mesmo”. Continuava com sede. Pagou a conta e foi até o bilhar do outro lado da rua. Seu amigo Túlio jogava uma partidinha. Pediram uma cerveja, sem espuma. Pediram quatro. Oto sentia sede. Muita sede. Pendurou a conta, depois de muito enrolar Quintanilhas, o dono do bar, e saiu. Entrou em Deise e saiu. (Chamava o Escorte de Deise, ninguém sabia o porquê.) Decidiu que iria até o limite do centro. Até a rua Nogueira de Cardoso. Não mais, porque precisava voltar para o escritório, para sua mesa, para as piadas de Rubens Palermo, para os lápis sem ponta, as canetas sem tampa, as tesouras sem fio. As fendas doíam. Já haviam doído outras vezes, mas era só molhá-las um pouco que a dor passava. As fendas sangravam. Oto não sabia se estavam rasgando ainda mais suas carnes ou se fechavam por obra divina. Será que Deus estava olhando por ele, como muitas vezes havia pedido ajoelhado nos pés da cama? Não. Deus era muito ocupado para olhar a essa hora do dia para Oto de Resende Murtosa, um reles assistente em um escritório de advocacia no centro da cidade. Deus olhava para aqueles bem afortunados. Somente os ricos eram acompanhados por Ele. Somente eles tinham sorte. Oto não. Oto era apenas mais um, mais uma formiga caminhando nas esquinas do centro, esperando ser esmagada pelo pé divino. As fendas doíam. Oto resolveu passar os limites do centro. Rodou meia hora até o fim da cidade. De lá, dirigiu até o litoral, a 80km de onde estava. Não pensava no escritório, nem nos peitos saltitantes de Marielza, nem nas portas do banheiro rangindo, nem nas pilhas de processos voando com as janelas abertas. Apenas pensava nas fendas. Achou que elas queriam ver o mar. Então saciaria a sede das guelras com a visão do oceano. Na praia, tirou os sapatos e arrastou os pés descalços nos grossos grãos de areia escura. Entrou até os calcanhares na água fria e salgada. Abaixou-se, pegou um pouco de água nas mãos em forma de concha e empapou o colarinho, embebendo as brânquias com azul. Levantou-se e mergulhou. Perdeu-se na espuma das ondas. E desapareceu.
“Oto, pára de babar no processo e aponta o lápis pra mim”. As fendas doíam. Já haviam doído outras vezes, mas era só molhá-las...

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Skillas e o apito inicial

Skill Futebol Feminino. Não vem do inglês skill, que significa habilidade. Até poderia vir, mas não vem. É referente à empresa do pai de uma das jogadoras. Na falta de um nome durante a reunião da comissão técnica, ficou Skill mesmo. Ninguém se opôs, uma vez que ninguém foi. O time se formou no dia em que fecharam as inscrições para o I Campeonato Metropolitano de Futebol Feminino. Foi aí que tudo começou. Primeiro, as meninas tinham que se conhecer. Uma chamou amigas, outra chamou colegas e conhecidas. Conseguiram uma goleira a duras penas. Mas conseguiram. Tinham uma semana para treinar o máximo que podiam para a estréia no campeonato. Estréia contra o time da ex-jogadora Duda, fiel incentivadora das mulheres no futebol. Ela não joga mais há anos, mas formou dois times a fim de conseguir as duas vagas que abrirão para o Estadual, fruto das duas melhores colocações no metropolitano. Duda apostou todas as suas fichas. Meninas que treinam juntas há séculos, que jogam desde pequenas, que ainda são pequenas, que têm pulmões, que jogam em clubes da cidade. Além dos dois Dudas, outros times desconhecidos alimentavam a imaginação das skillas. Como seria o representante francês Rey Sol? O oriundo da segunda divisão Corinthians? O Atlético da Bom Jesus (da Bom Jesus!)? O boêmio Vinícius de Morais? O emissário do zoológico Sapucaiense? O pantera negra Black Show? O soviético CEVI/KRAI? Muitas das participantes do Skill nunca haviam jogado futebol onze, de campo. Muitas ainda não tinham músculos suficientes para fazer com que a bola atravessasse o círculo central. Muitas não tinham o menor referencial das dimensões do gramado. Mas mesmo assim elas apostaram na zebra e treinaram. Encontraram-se no parque Marinha, antro de bêbados e mendigos, durante a noite de uma segunda-feira. Entraram pela primeira vez em um campo de várzea, muito parecido com o que iriam jogar. No entanto, o gramado não existia. “Alguém lembrou de trazer a grama?”, disse uma delas. O único local disponível, de graça, no centro da cidade, possuía um dos piores campos possíveis. Perfeito para uma lesão de joelho. Mas elas seguiram. Apresentaram-se uma a uma. Clarissa, Larissa, Gabrielas, Grasiele, Ariana, Pâmela, Lisie, Fernanda, Giedre, Thais, Rochelle, Évelyn, Carol, Christiane, Julia, Sabrina, Adriana, Marina, Camila, Lauren. Estudantes de educação física, arquitetura, jornalismo, engenharia de minas, publicidade, direito, até uma brigadiana, todas unidas pelo amor à competição e ao futebol. Zagueiras, volantes, meias, laterais, atacantes e até uma goleira. A zebra do campeonato havia se juntado. Uma semana antes do primeiro jogo. Treinaram quatro vezes durante os sete dias que antecediam à estréia. Compraram uniformes esmeraldino-negros, com meiões pretos e chuteiras de travas por 50 reais no Centro. Conseguiram três técnicos. Wilson, Mirim e o outro que ninguém sabe o nome – ele só apareceria no dia do jogo. Wilson é formado em educação física e inicialmente parecia um chato de galocha, daqueles malas que querem mostrar serviço. Porém, durante os treinos, virou o xodó das mães que acompanhavam o time. “Ele é um amor! É muito carinhoso com as gurias”, dizia a genitora cacheada grudada no alambrado do campo suplementar da ESEF – Escola Superior de Educação Física da UFRGS -. Mirim é Guilherme. De 1,60m. Ainda estudante de educação física na PUC. O preparador-físico-sem-nome ficou esquecido pelas meninas, que clamavam pela presença dos dois técnicos de antagônicas estaturas e seus chinesinhos laranjas demarcadores de posições. Nos primeiros treinos, o quorum foi invejável. Em torno de 15 meninas apareceram. Algumas não jogavam há muito tempo, fruto de lesões ou falta de tempo. Algumas não respiravam mais. A reclamação era a ausência das outras seis jogadoras, que haviam esquecido do treino ou simplesmente estavam doentes ou em aula. Mas elas tinham certeza de que no sábado pré-jogo todas compareceriam. Afinal, todas querem jogar. E era nesse dia que os técnicos paradoxais decidiriam o time titular. As meninas treinaram na areia, sem luz, em campos reduzidos, com menos atletas, com bolas murchas, com bolas pesadas, no frio, no calor. Treinaram em todas as condições adversas possíveis. Além do fato de nunca terem jogado juntas, elas ainda enfrentavam o problema da falta de estrutura. Os técnicos tentavam incentivar, falavam que as individualidades eram ótimas, que só faltava ritmo de jogo, cadência, entrosamento, coisas que só ao jogar são arrumadas. No sábado pré-jogo, surpreendentemente, nem todas as meninas apareceram. O treino deu-se a baixo de frio e chuva, em um campo de futebol society. As posições foram definidas. Christianes no gol. Gabrielas na zaga. Clarissas e Laurens nas laterais. Larissas e Giedres de volantes. Évelyns e Sabrinas como meias. Pâmelas e Lisies no ataque. Domingo se aproximava. Era o dia da prova final, do teste. A zagueira direita estava temerosa. Pouco confiante. Não sabia ao certo se conseguiria atuar em um campo tão grande. Ela, além de nunca ter jogado futebol onze, tinha asma. Não tinha medo das adversárias. Tinha medo era de si mesma. A meia esquerda não acreditava em seu futebol. Wilson, o alto, teve que chamá-la e dizer: estou te colocando porque eu tenho confiança em ti. És a melhor da posição, quem vai poder criar no time. Ela não acreditou muito, mas fingiu que sim. A atacante/centroavante tinha receio do joelho. Há oito meses havia rompido os ligamentos. A primeira volante ficara encarregada de proteger a inexperiente defesa, uma vez que era pouco provável que as laterais, após um pique até o ataque, voltassem para ajudar. O time tentava se manter confiante, mas era difícil frente à estréia contra um time entrosado e, principalmente, jovem. A média das jogadoras ficava entre os 15 e 16 anos. A média do Skill era de 21 anos. Mesmo com a pequena lacuna de idade, era notável a diferença do preparo físico. Parecia que a peralvilhas possuíam três pulmões e as idosas, meio. No entanto, era o que tinham no momento. Não havia a possibilidade de brotar células formadoras de órgãos respiratórios novos em folha. Jogariam com garra. E meio pulmão. O domingo havia chegado. Uma a uma foram se reunindo perto do campo onde o jogo anterior acontecia, com quase uma hora de atraso. Devido a isso, elas jogariam ao meio dia. Era um dia seco e quente de abril. No vestiário, as camisetas foram distribuídas. Felizmente, havia reservas para quase todas as posições. O número 16 ficou de fora. Aparentemente, uma macumba do técnico maior. Algumas jogadoras não haviam levado meiões, outras haviam saído na noite anterior e dormiram até tarde. Uma esqueceu por completo do jogo e teve que ser avisada às pressas. Havia jogadoras desconhecidas, que nunca foram em treino algum, que só apareceram para jogar. Desde que fizessem algo em campo, o comparecimento repentino seria perdoado. Tiveram jogadoras que mesmo telefonadas diversas vezes, não atenderam aos chamados e simplesmente não compareceram ao jogo – depois alegaram problemas pessoais -. Mas não havia mais nada a ser feito. Era a hora do jogo. As meninas colocaram suas coisas no banco de reservas e se juntaram em um círculo. Afastaram as pernas e colocaram os pés lado a lado, encostando nas chuteiras das companheiras. Formaram ali um vínculo de cumplicidade e confiança. Sabiam que cada uma ali daria o sangue e o suor pelas outras. A torcida composta por pais e namorados gritava pelas grades enferrujadas que circundavam o campo. O time todo se uniu para a foto inicial, na tradicional posição. Elas tremiam. Colocaram suas caneleiras, prenderam os cabelos. Fizeram preces, alimentaram suas superstições, tomaram os últimos goles de água. O time titular entrou em campo. Cada uma tomou sua posição. Algumas olhavam com receio para o Alto a fim de confirmar seu perímetro de atuação. O nervosismo era grande. Olhavam do juiz para o Mirim, dele para a goleira, dela para as outras, delas para os próprios pés com travas.

Então, o árbitro levou o apito aos lábios.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

ônibus? numa hora dessas?

Parece que eu exerço uma estranha simpatia nos motoristas e cobradores. Em especial de T1s e T1s Diretos.
Isso é realmente curioso. Não sou uma pessoa simpática. Não ao menos com quem não conheço. Passo muitas vezes a impressão de sisuda e até esnobe. Mas isso não vem ao caso.

Sábado, peguei o colectivo e, ao passar pela roleta, ouvi do cobrador:

"Indo pra aula hoje, loirinha?"

Loirinha? Que bela intimidade com o cobrador das 7h40. Nem a minha mãe me chama assim.

Quando eu chego meio tarde na parada, o motorista pára para mim no sinal e abre a porta. E diz:

"Não acordou hoje, é?"

He... é brincadeira... Ainda tenho que ouvir o motorista do ônibus me cobrando responsabilidade.

Sem contar que, esses dias, ao sair do ônibus, esse mesmo veio falar comigo:

"Resolveu frequentar a aula, é?"

Fazia dias que não ia com o ônibus das 7h25, horário dele. E ele me cobrava as aulas.


É... é da intimadade que se dá o abuso.

Mas eu aguento. Não ha nada melhor que uma conversa e um sorriso mistoso logo no início da manhã.