sábado, 21 de junho de 2008

A estrela solitária - Leo e o Fogão

O time do Botafogo entrou em campo.

Leo tem os cabelos curtos. Para o lado. Uma cicatriz no lado direito do rosto, fruto de pontos mal feitos por uma enfermeira iniciante após uma cirurgia. Não usa tênis ou chinelos, apenas sapatos. Sapatos pretos, sociais. Pretos gastos, puídos, quase nunca novos. Às vezes troca por sapatos de camurça, verde musgo. Mas gosta mesmo é dos pretos. Usa blusões de lã e é pouco extravagante: opta sempre pelo marrom ou bege ou verde ou creme ou por sua companheira camisa do Botafogo. Não sente muito frio. Costuma usar somente os blusões e uma camiseta por baixo. Diz que seu casaco está com a ex-namorada. O carioca já se acostumou com o clima do sul. Veio do Rio de Janeiro, capital. Sempre morou em capital. Até na hora de trocar de casa, as opções ficaram entre Curitiba e Porto Alegre. Optou pela capital gaúcha. Diz que Curitiba é muito certinha. “Lá todos os relógios marcam a mesma hora.” Realmente. Como morar em uma cidade dessas?

Renan, Renato Silva, Leandro Guerreiro – “Esse aí se criou no Inter” - e Bruno Costa; Alessandro, Túlio, Diguinho, Lucio Flávio e Zé Carlos; Jorge Henrique e Fábio – “Esse Fábio é bom”.

Algumas pessoas acham estranho ver um cara na faculdade sempre encostado na mesma janela do saguão, sozinho, e com sua camiseta do Botafogo. Quando era pequeno, no Rio, foi expulso do colégio por pensarem que era um projeto de serial killer. Ele realmente tem esse perfil. É quieto, fala pouco, poderia ter matado sua própria mãe no dia das mães. Mas não. Preferiu matar o tempo e se mudar para Porto Alegre. Tentado pelas belas gaúchas e cansado da feiúra das cariocas, Leo, na época chamado de Ronnie – fruto de uma grotesca comparação com Ronnie Von – fingiu uma terrível depressão e veio continuar os estudos de história. De saco cheio de formar grupos com freiras, deficientes físicos e retardados, decidiu trocar de curso. “Não estava em sintonia com o grupo, em todos os sentidos. Até locomotores. Deus ta olhando tudo... Vai me dar um filho com Down. Mas eu não me importo”. Passou na segunda tentativa para o curso de jornalismo. E lá onde se encontra até hoje. Não faz o menor tipo de jornalista medíocre. Não gosta de seguir a maldita pirâmide invertida ou inventar um tosco lead. É um cara criativo e de escrita explosiva. Gosta mesmo é da liberdade. Poder escrever do jeito que quiser, sem ter um editor chato lhe cortando as asas. É até por isso que não consegue se imaginar atuando no jornalismo. A empresa deverá ser muito estranha para deixá-lo publicar as coisas do seu próprio jeito. É uma personalidade em falta no jornalismo.

Gol!Ah.. Putaquepariu... É muito azarado esse Botafogo”!

Em sua casa, é observado por dois Roberto Carlos em diferentes fases. Bonecos espalhados pelas estantes fazem o papel de mãe. Sua geladeira, sempre vazia, mostra que o rapaz mora sozinho. A mãe vive em Porto Alegre, mas ele não agüentaria dividir o apartamento com ela. Morando sozinho, teve que aprender a comer qualquer coisa. Se tem alguma coisa na geladeira, ele come. Não importa o que seja. “Só não como aquilo que eu realmente não gosto, como dobradinha e pirão”. As roupas espalhadas pelas cadeiras também mostram que o rapaz que só comia pratos de criança – bife, batatas fritas, arroz e feijão - ainda não se acostumou à vida de gente grande.

Esse Gaciba tem uma cara de nazista...

Leo é um homem intenso. Se apaixona e desapaixona com uma facilidade enorme. Um dia é uma bonitinha do segundo semestre que é um charme. No outro, é uma loirinha com uma voz bonita. Depois, é Ângela Carne Osso, dos filmes de Sganzerla. Aí vem aquela ruiva, de cabelo curtinho, que ele viu dançando em uma festa. Adora os óculos e o jeito de caminhar da baixinha do sétimo semestre. “Descobre pra mim se ela é burra”. “As portas são as melhores”. Mas, logo, logo, já se desapaixona por todas. E não é apaixonado por mais ninguém.

Já deram duas bolas na trave.

Ele tem como sobrenome um dos mais tradicionais bairros de Porto Alegre, embora frise que é com ême e tudo junto. Mora na Cidade Baixa, quase no Centro. Não é muito fã de passeios ao ar livre. Prefere ficar em casa vendo filmes ou ir ao cinema. Por falar em cinema, é o mais novo curador das mostras de Porto Alegre. Louco por cinema brasileiro, Leo organizou uma mostra de cinema marginal, com filmes da década de 70, muitos nunca exibidos. Tem ido a todas as sessões, mesmo àquelas que já assistiu. Milhares de vezes. O que mais gostou foi Hitler III Mundo. Leo tem um encanto por filmes estranhos. A sua casa é repleta de livros de cinema, com Trouffaut e Godard o olhando de cima a baixo, na prateleira.

Falta! Cartão! Dá vermelho logo!

Leo é músico. Toca guitarra. Obviamente, na guitarra dele tem o brasão do Botafogo. Em um show, enquanto tocavam a trilha de um filme, uma corda da querida Giannini se rompeu. No meio da música. A última do show. Leo não pensou duas vezes. Quebrou a guitarra em mil pedaços, no chão do palco. E, como um bom rock star, jogou para o público. Em um acesso alucinante promovido pela música, Leo foi contra toda sua vida de não-violência e destruiu a pobre Giannini no duro chão da fama. Ficou com o corpo da guitarra. Expõe na parede de casa. O braço da guitarra, para sua surpresa, foi pego por uma amiga – eu – que guarda até hoje a lembrança do inesquecível show. “Achei que um imbecil ia pegar”.

Beleza! Vai pro contra-ataque!

Bomfim tem amigos peculiares. Plato é um deles. Plato Divorak. É nome artístico, claro. Mas virou nome próprio. É o vocalista da banda de Leo. É com ele que Leo passa os mais inacreditáveis momentos. O interessante é o senso de humor que Leo tem quando com ele. Plato é ingênuo e Leo aproveita a situação mentindo absolutamente tudo. Mas eles se amam. Plato também é sacana. Coloca Leo nas maiores enrascadas, como acompanhá-lo em um puteiro barato. Leo também se deu muito bem com os chineses. Todos que já passaram pela Famecos. Ano passado, fez amizade com Paulo. Paulo ensinava palavrões em chinês para Leo. Tsau Ni Má. Leo ensinava em português. E todos se sacaneavam mutuamente. Atualmente, há novos chineses na Famecos. Eles já deram um apelido chinês a Leo: Sai Chau. O problema é que na China cada palavra é diferente dependendo da entonação. Leo nunca vai saber o que significa. E o chineses riem toda vez que o chamam. Mas não importa. Ele adora os chineses. E o Tibet que se dane.

Golaço! Putaquepariu...

Leo é meio duro nos movimentos. Não costuma encostar nas pessoas quando as cumprimenta. Os abraços são de longe. Está sempre mexendo no cabelo. Arrumando um cabelo eternamente bagunçado, até porque é a ex-namorada que corta o cabelo dele. Não olha muito nos olhos das pessoas. Não tirou o olhar da televisão, nem no intervalo do jogo. Também não muda o tom da voz. Costuma falar sempre na mesma calma, não importa o tema. Nunca se exalta. Sempre tira sarro das coisas, principalmente daqueles que conhece. Ele e seu amigo Rafa são exímios tiradores de sarro sem que os outros consigam percebem que estão sendo sacaneados.

Já vi que vai ser difícil sair gol.

Aos 28 minutos do segundo tempo, começou a sacudir e batucar os pés. Estava inquieto. O Botafogo jogava muito mal e tomava um sufoco do Atlético Mineiro. O que é realmente preocupante. Mas Leo não se importa muito. Não se enerva. Torce quieto, dizendo as vezes poucas palavras de irritação. Somente quando o Fogão perdeu um gol feito que Leo disse baixo um putaquepariu e bateu nas pernas, com raiva. E só. Estranho, vindo de um botafoguense que foi até o Maracanã no fim de semana somente para ver a final do carioca. E que queria estar no Rio na quinta-feira, depois da eliminação do Flamengo, só para tirar com a cara dos flamenguistas. Leo é um pouco controverso. É o cara quieto, na dele, mas que, quando tem a oportunidade, rasga todas as formalidades e não dispensa uma boa piada. É uma figura peculiar. Ouve músicas estranhas, vê filmes estranhos, torce por um time estranho. Mas, no fundo, no fundo, é um guri bom. Bem bom.

Fim da partida no Mineirão. 0 a 0. O jogo de volta, no Maracanã, é decisivo. Quem ganhar está classificado para a próxima fase da Copa do Brasil. Os jogadores trocam de camisa, trocam apertos de mão. É o Fogão e o Galo tentando a classificação. Vem pro Rio, Leonardo!

2 comentários:

Leonardo Bomfim disse...

que medo dessa figura!

E o Fábio é HORROROSO! Como alguém pode ter falado bem dele?? hehe

Cínthya Verri disse...

Que maravilha.