sábado, 7 de junho de 2008

A espuma


Oto tinha fendas branquiais. Fendas branquiais, nos mamíferos, seriam as brânquias dos peixes que, no processo embrionário humano, se fecham e se transformam nas trompas de Eustáquio. Mas isso não vem ao caso. Oto tinha fendas branquiais. Quando embrião, seu aparelho respiratório primitivo não se degenerou e criou as fendas que atualmente possui atrás das orelhas. Ninguém nunca soube de suas fendas. Sempre as escondeu com os cabelos longos. Mas sempre soube que não pertencia a este mundo. No colégio, queria saber mais sobre os animais aquáticos. Sobre peixes, arraias, tubarões, tintureiras. Achava fantástico o poder de respirarem de baixo d’água. Não sabia ao certo quais as limitações de suas fendas. Não sabia se, por acaso, caísse n’água, poderia respirar. Oto não sabia nadar. Sempre teve medo de entrar em piscinas ou no mar, com medo de que algo de estranho pudesse acontecer. Trabalhava em um escritório de advocacia, no centro da cidade, longe de tudo aquilo que acreditava pertencer. Oto nunca viu o mar. Não sabia a cor, o cheiro, o toque salgado. Também nunca teve vontade de conhecer. Sempre teve medo do tamanho do oceano.
Um dia, sentado em sua mesa, levantou abruptamente, pegou seu casaco e saiu pela porta de vidro. Entrou no elevador, desceu os quatorze andares que o separavam do térreo e cruzou o estacionamento. Destrancou seu Escorte Azul 92, entrou e parou. Colocou as mãos no volante e abaixou a cabeça. Puxou o espelho retrovisor e se olhou. Olhou os olhos cansados, os lábios secos, a garganta ardida. Precisava beber. Apertou o botão da porta da garagem e saiu vagarosamente. Rodou até o bar mais próximo, na esquina. Não poderia ir andando, suas pernas não o agüentariam. Levantou-se do banco de couro puído e foi até o Boteco Bill. Pediu uma purinha, branquinha, em copo baixo, sabor tangerina. Engoliu de uma botada só. Pediu outra. Agora sabor pitanga. Outra, de menta. “Agora me vê da pura mesmo”. Continuava com sede. Pagou a conta e foi até o bilhar do outro lado da rua. Seu amigo Túlio jogava uma partidinha. Pediram uma cerveja, sem espuma. Pediram quatro. Oto sentia sede. Muita sede. Pendurou a conta, depois de muito enrolar Quintanilhas, o dono do bar, e saiu. Entrou em Deise e saiu. (Chamava o Escorte de Deise, ninguém sabia o porquê.) Decidiu que iria até o limite do centro. Até a rua Nogueira de Cardoso. Não mais, porque precisava voltar para o escritório, para sua mesa, para as piadas de Rubens Palermo, para os lápis sem ponta, as canetas sem tampa, as tesouras sem fio. As fendas doíam. Já haviam doído outras vezes, mas era só molhá-las um pouco que a dor passava. As fendas sangravam. Oto não sabia se estavam rasgando ainda mais suas carnes ou se fechavam por obra divina. Será que Deus estava olhando por ele, como muitas vezes havia pedido ajoelhado nos pés da cama? Não. Deus era muito ocupado para olhar a essa hora do dia para Oto de Resende Murtosa, um reles assistente em um escritório de advocacia no centro da cidade. Deus olhava para aqueles bem afortunados. Somente os ricos eram acompanhados por Ele. Somente eles tinham sorte. Oto não. Oto era apenas mais um, mais uma formiga caminhando nas esquinas do centro, esperando ser esmagada pelo pé divino. As fendas doíam. Oto resolveu passar os limites do centro. Rodou meia hora até o fim da cidade. De lá, dirigiu até o litoral, a 80km de onde estava. Não pensava no escritório, nem nos peitos saltitantes de Marielza, nem nas portas do banheiro rangindo, nem nas pilhas de processos voando com as janelas abertas. Apenas pensava nas fendas. Achou que elas queriam ver o mar. Então saciaria a sede das guelras com a visão do oceano. Na praia, tirou os sapatos e arrastou os pés descalços nos grossos grãos de areia escura. Entrou até os calcanhares na água fria e salgada. Abaixou-se, pegou um pouco de água nas mãos em forma de concha e empapou o colarinho, embebendo as brânquias com azul. Levantou-se e mergulhou. Perdeu-se na espuma das ondas. E desapareceu.
“Oto, pára de babar no processo e aponta o lápis pra mim”. As fendas doíam. Já haviam doído outras vezes, mas era só molhá-las...

5 comentários:

Luana Duarte Fuentefria disse...

que mucho loco isso, bebela!
vais te especializar em histórias fantásticas. hehe

Chi disse...

Adorei. me indentifiquei com o peixinho.

Cínthya Verri disse...

Bebela,
não sei se tu se lembra de mim, nos conhecemos na casa da Titi.
Achei teu blog pela via Incrível Humanidade.
Uma coisa maravilhosa teus escritos.
Já sou fã (mesmo, mesmo, mesmo).
Um beijo.

Chi disse...

Uma vez eu passei uma balada inteira papepando com vc....lah pelo nordeste.

Chi disse...

Hahahaha...eu não sei escrever.
escrever é oq vc faz, eu só coloco palavras em concordância.