Segunda-feira, 7 de Julho de 2008

Ogra.

Não adianta. Eu não tenho o jeito da coisa.

Não sou meiga. Não sou fofucha. Muito menos um amor.
Não consigo usar o abre-e-fecha fácil da Lacta.
Não sei abrir nem Halls nem Clube Social pela listrinha vermelha.
Não consigo beber nada sem me derrubar.

Só como carne mugindo e fugindo de mim.
Sou zagueira.

Não tenho paciência para o telefone.
Não consigo dar explicações sem trincar os dentes.
Não tiro os nós dos sapatos.
Não uso roupas passadas.

Acordo e ponho as mesmas meias de ontem.
Escovo os dentes com vigor.

Não penteio os cabelos há quatro anos.
Não sei me maquiar.
Não uso cores vivas.
Não dou abraços com os dois braços.

Meu namorado reclama que eu só machuco ele.
Estralo os dedos sem parar.

As vezes acho que fui encontrada em uma gruta,
em meio a ossos e pedras.
Eu, a menina ogra.

Sábado, 21 de Junho de 2008

Ah, o Centro.

Ah, o Centro.
Como moradora do Menino Deus, nunca tive a oportunidade de andar pelas ruas de meu bairro e esbarrar em pessoas diferentes a cada esquina. São índios, loiros, morenos, ruivos, calvos, grisalhos, negros, albinos, crianças, idosos, gente sem idade definida, pedintes, compro-ouro-corto-cabelos, mágicos, prostitutas, malabaristas. É isso que aprecio no Centro: os encontros. Andar nas ruas, esbarrando, esquivando, contorcendo para fugir dos apressados, olhando, sempre, a todos. Ver seus olhos cansados, a fumaça saindo da boca, os braços estendidos entregando panfletos, os corpos enrolados em jornais no chão, as crianças tocando violas acompanhadas por gaiteiros já passados da validade.

Ah, o Centro.
Nos dias de hoje, em que todos fugimos do contato humano apelando para o mundo cibernético, o Centro permanece como último remanescente da humanidade. É lá que todos trocam toques e carinhos apressados e sem compromisso. Onde algumas pessoas voltam a sentir-se amadas, pedem desculpas pela diminuta relação que tiveram e seguem em frente, um pouco mais felizes. Um pouco mais aquecidas. São pequenos esbarros, pequenos pegares de mãos, pequenos chutes nos tendões de Aquiles, mas que fazem toda a diferença para os carentes da cidade.

Ah, o Centro.
Andradas, Sete de Setembro, Duque de Caxias, Borges de Medeiros. Lombas e planos. Tenho uma estranha atração pelas ruas do Centro. Os calçamentos, as árvores, as mesas de damas, os colares e brincos expostos, os passantes e os estáticos. Enquanto atravesso o Centro, meus olhos vão captando as belezas escondidas e as sutilezas imperceptíveis aos apressados.

Ah, o Centro.
Outra peculiar alegria minha são os dias de chuva. Literalmente, chove de baixo para cima, de cima para baixo, de todos os lados para lado algum. É aí que entram os guarda-chuvas. Coloridos, pretos, transparentes, gigantes, médios e pequenos, frágeis e firmes, todos amontoados formando um descompassado tapete que cobre as ruas. O Centro vira carnaval e a cidade desfila pelas avenidas.

Ah, o Centro.

* Artigo publicado no Jornal do Centro

A estrela solitária - Leo e o Fogão

O time do Botafogo entrou em campo.

Leo tem os cabelos curtos. Para o lado. Uma cicatriz no lado direito do rosto, fruto de pontos mal feitos por uma enfermeira iniciante após uma cirurgia. Não usa tênis ou chinelos, apenas sapatos. Sapatos pretos, sociais. Pretos gastos, puídos, quase nunca novos. Às vezes troca por sapatos de camurça, verde musgo. Mas gosta mesmo é dos pretos. Usa blusões de lã e é pouco extravagante: opta sempre pelo marrom ou bege ou verde ou creme ou por sua companheira camisa do Botafogo. Não sente muito frio. Costuma usar somente os blusões e uma camiseta por baixo. Diz que seu casaco está com a ex-namorada. O carioca já se acostumou com o clima do sul. Veio do Rio de Janeiro, capital. Sempre morou em capital. Até na hora de trocar de casa, as opções ficaram entre Curitiba e Porto Alegre. Optou pela capital gaúcha. Diz que Curitiba é muito certinha. “Lá todos os relógios marcam a mesma hora.” Realmente. Como morar em uma cidade dessas?

Renan, Renato Silva, Leandro Guerreiro – “Esse aí se criou no Inter” - e Bruno Costa; Alessandro, Túlio, Diguinho, Lucio Flávio e Zé Carlos; Jorge Henrique e Fábio – “Esse Fábio é bom”.

Algumas pessoas acham estranho ver um cara na faculdade sempre encostado na mesma janela do saguão, sozinho, e com sua camiseta do Botafogo. Quando era pequeno, no Rio, foi expulso do colégio por pensarem que era um projeto de serial killer. Ele realmente tem esse perfil. É quieto, fala pouco, poderia ter matado sua própria mãe no dia das mães. Mas não. Preferiu matar o tempo e se mudar para Porto Alegre. Tentado pelas belas gaúchas e cansado da feiúra das cariocas, Leo, na época chamado de Ronnie – fruto de uma grotesca comparação com Ronnie Von – fingiu uma terrível depressão e veio continuar os estudos de história. De saco cheio de formar grupos com freiras, deficientes físicos e retardados, decidiu trocar de curso. “Não estava em sintonia com o grupo, em todos os sentidos. Até locomotores. Deus ta olhando tudo... Vai me dar um filho com Down. Mas eu não me importo”. Passou na segunda tentativa para o curso de jornalismo. E lá onde se encontra até hoje. Não faz o menor tipo de jornalista medíocre. Não gosta de seguir a maldita pirâmide invertida ou inventar um tosco lead. É um cara criativo e de escrita explosiva. Gosta mesmo é da liberdade. Poder escrever do jeito que quiser, sem ter um editor chato lhe cortando as asas. É até por isso que não consegue se imaginar atuando no jornalismo. A empresa deverá ser muito estranha para deixá-lo publicar as coisas do seu próprio jeito. É uma personalidade em falta no jornalismo.

Gol!Ah.. Putaquepariu... É muito azarado esse Botafogo”!

Em sua casa, é observado por dois Roberto Carlos em diferentes fases. Bonecos espalhados pelas estantes fazem o papel de mãe. Sua geladeira, sempre vazia, mostra que o rapaz mora sozinho. A mãe vive em Porto Alegre, mas ele não agüentaria dividir o apartamento com ela. Morando sozinho, teve que aprender a comer qualquer coisa. Se tem alguma coisa na geladeira, ele come. Não importa o que seja. “Só não como aquilo que eu realmente não gosto, como dobradinha e pirão”. As roupas espalhadas pelas cadeiras também mostram que o rapaz que só comia pratos de criança – bife, batatas fritas, arroz e feijão - ainda não se acostumou à vida de gente grande.

Esse Gaciba tem uma cara de nazista...

Leo é um homem intenso. Se apaixona e desapaixona com uma facilidade enorme. Um dia é uma bonitinha do segundo semestre que é um charme. No outro, é uma loirinha com uma voz bonita. Depois, é Ângela Carne Osso, dos filmes de Sganzerla. Aí vem aquela ruiva, de cabelo curtinho, que ele viu dançando em uma festa. Adora os óculos e o jeito de caminhar da baixinha do sétimo semestre. “Descobre pra mim se ela é burra”. “As portas são as melhores”. Mas, logo, logo, já se desapaixona por todas. E não é apaixonado por mais ninguém.

Já deram duas bolas na trave.

Ele tem como sobrenome um dos mais tradicionais bairros de Porto Alegre, embora frise que é com ême e tudo junto. Mora na Cidade Baixa, quase no Centro. Não é muito fã de passeios ao ar livre. Prefere ficar em casa vendo filmes ou ir ao cinema. Por falar em cinema, é o mais novo curador das mostras de Porto Alegre. Louco por cinema brasileiro, Leo organizou uma mostra de cinema marginal, com filmes da década de 70, muitos nunca exibidos. Tem ido a todas as sessões, mesmo àquelas que já assistiu. Milhares de vezes. O que mais gostou foi Hitler III Mundo. Leo tem um encanto por filmes estranhos. A sua casa é repleta de livros de cinema, com Trouffaut e Godard o olhando de cima a baixo, na prateleira.

Falta! Cartão! Dá vermelho logo!

Leo é músico. Toca guitarra. Obviamente, na guitarra dele tem o brasão do Botafogo. Em um show, enquanto tocavam a trilha de um filme, uma corda da querida Giannini se rompeu. No meio da música. A última do show. Leo não pensou duas vezes. Quebrou a guitarra em mil pedaços, no chão do palco. E, como um bom rock star, jogou para o público. Em um acesso alucinante promovido pela música, Leo foi contra toda sua vida de não-violência e destruiu a pobre Giannini no duro chão da fama. Ficou com o corpo da guitarra. Expõe na parede de casa. O braço da guitarra, para sua surpresa, foi pego por uma amiga – eu – que guarda até hoje a lembrança do inesquecível show. “Achei que um imbecil ia pegar”.

Beleza! Vai pro contra-ataque!

Bomfim tem amigos peculiares. Plato é um deles. Plato Divorak. É nome artístico, claro. Mas virou nome próprio. É o vocalista da banda de Leo. É com ele que Leo passa os mais inacreditáveis momentos. O interessante é o senso de humor que Leo tem quando com ele. Plato é ingênuo e Leo aproveita a situação mentindo absolutamente tudo. Mas eles se amam. Plato também é sacana. Coloca Leo nas maiores enrascadas, como acompanhá-lo em um puteiro barato. Leo também se deu muito bem com os chineses. Todos que já passaram pela Famecos. Ano passado, fez amizade com Paulo. Paulo ensinava palavrões em chinês para Leo. Tsau Ni Má. Leo ensinava em português. E todos se sacaneavam mutuamente. Atualmente, há novos chineses na Famecos. Eles já deram um apelido chinês a Leo: Sai Chau. O problema é que na China cada palavra é diferente dependendo da entonação. Leo nunca vai saber o que significa. E o chineses riem toda vez que o chamam. Mas não importa. Ele adora os chineses. E o Tibet que se dane.

Golaço! Putaquepariu...

Leo é meio duro nos movimentos. Não costuma encostar nas pessoas quando as cumprimenta. Os abraços são de longe. Está sempre mexendo no cabelo. Arrumando um cabelo eternamente bagunçado, até porque é a ex-namorada que corta o cabelo dele. Não olha muito nos olhos das pessoas. Não tirou o olhar da televisão, nem no intervalo do jogo. Também não muda o tom da voz. Costuma falar sempre na mesma calma, não importa o tema. Nunca se exalta. Sempre tira sarro das coisas, principalmente daqueles que conhece. Ele e seu amigo Rafa são exímios tiradores de sarro sem que os outros consigam percebem que estão sendo sacaneados.

Já vi que vai ser difícil sair gol.

Aos 28 minutos do segundo tempo, começou a sacudir e batucar os pés. Estava inquieto. O Botafogo jogava muito mal e tomava um sufoco do Atlético Mineiro. O que é realmente preocupante. Mas Leo não se importa muito. Não se enerva. Torce quieto, dizendo as vezes poucas palavras de irritação. Somente quando o Fogão perdeu um gol feito que Leo disse baixo um putaquepariu e bateu nas pernas, com raiva. E só. Estranho, vindo de um botafoguense que foi até o Maracanã no fim de semana somente para ver a final do carioca. E que queria estar no Rio na quinta-feira, depois da eliminação do Flamengo, só para tirar com a cara dos flamenguistas. Leo é um pouco controverso. É o cara quieto, na dele, mas que, quando tem a oportunidade, rasga todas as formalidades e não dispensa uma boa piada. É uma figura peculiar. Ouve músicas estranhas, vê filmes estranhos, torce por um time estranho. Mas, no fundo, no fundo, é um guri bom. Bem bom.

Fim da partida no Mineirão. 0 a 0. O jogo de volta, no Maracanã, é decisivo. Quem ganhar está classificado para a próxima fase da Copa do Brasil. Os jogadores trocam de camisa, trocam apertos de mão. É o Fogão e o Galo tentando a classificação. Vem pro Rio, Leonardo!

Sábado, 7 de Junho de 2008

A espuma


Oto tinha fendas branquiais. Fendas branquiais, nos mamíferos, seriam as brânquias dos peixes que, no processo embrionário humano, se fecham e se transformam nas trompas de Eustáquio. Mas isso não vem ao caso. Oto tinha fendas branquiais. Quando embrião, seu aparelho respiratório primitivo não se degenerou e criou as fendas que atualmente possui atrás das orelhas. Ninguém nunca soube de suas fendas. Sempre as escondeu com os cabelos longos. Mas sempre soube que não pertencia a este mundo. No colégio, queria saber mais sobre os animais aquáticos. Sobre peixes, arraias, tubarões, tintureiras. Achava fantástico o poder de respirarem de baixo d’água. Não sabia ao certo quais as limitações de suas fendas. Não sabia se, por acaso, caísse n’água, poderia respirar. Oto não sabia nadar. Sempre teve medo de entrar em piscinas ou no mar, com medo de que algo de estranho pudesse acontecer. Trabalhava em um escritório de advocacia, no centro da cidade, longe de tudo aquilo que acreditava pertencer. Oto nunca viu o mar. Não sabia a cor, o cheiro, o toque salgado. Também nunca teve vontade de conhecer. Sempre teve medo do tamanho do oceano.
Um dia, sentado em sua mesa, levantou abruptamente, pegou seu casaco e saiu pela porta de vidro. Entrou no elevador, desceu os quatorze andares que o separavam do térreo e cruzou o estacionamento. Destrancou seu Escorte Azul 92, entrou e parou. Colocou as mãos no volante e abaixou a cabeça. Puxou o espelho retrovisor e se olhou. Olhou os olhos cansados, os lábios secos, a garganta ardida. Precisava beber. Apertou o botão da porta da garagem e saiu vagarosamente. Rodou até o bar mais próximo, na esquina. Não poderia ir andando, suas pernas não o agüentariam. Levantou-se do banco de couro puído e foi até o Boteco Bill. Pediu uma purinha, branquinha, em copo baixo, sabor tangerina. Engoliu de uma botada só. Pediu outra. Agora sabor pitanga. Outra, de menta. “Agora me vê da pura mesmo”. Continuava com sede. Pagou a conta e foi até o bilhar do outro lado da rua. Seu amigo Túlio jogava uma partidinha. Pediram uma cerveja, sem espuma. Pediram quatro. Oto sentia sede. Muita sede. Pendurou a conta, depois de muito enrolar Quintanilhas, o dono do bar, e saiu. Entrou em Deise e saiu. (Chamava o Escorte de Deise, ninguém sabia o porquê.) Decidiu que iria até o limite do centro. Até a rua Nogueira de Cardoso. Não mais, porque precisava voltar para o escritório, para sua mesa, para as piadas de Rubens Palermo, para os lápis sem ponta, as canetas sem tampa, as tesouras sem fio. As fendas doíam. Já haviam doído outras vezes, mas era só molhá-las um pouco que a dor passava. As fendas sangravam. Oto não sabia se estavam rasgando ainda mais suas carnes ou se fechavam por obra divina. Será que Deus estava olhando por ele, como muitas vezes havia pedido ajoelhado nos pés da cama? Não. Deus era muito ocupado para olhar a essa hora do dia para Oto de Resende Murtosa, um reles assistente em um escritório de advocacia no centro da cidade. Deus olhava para aqueles bem afortunados. Somente os ricos eram acompanhados por Ele. Somente eles tinham sorte. Oto não. Oto era apenas mais um, mais uma formiga caminhando nas esquinas do centro, esperando ser esmagada pelo pé divino. As fendas doíam. Oto resolveu passar os limites do centro. Rodou meia hora até o fim da cidade. De lá, dirigiu até o litoral, a 80km de onde estava. Não pensava no escritório, nem nos peitos saltitantes de Marielza, nem nas portas do banheiro rangindo, nem nas pilhas de processos voando com as janelas abertas. Apenas pensava nas fendas. Achou que elas queriam ver o mar. Então saciaria a sede das guelras com a visão do oceano. Na praia, tirou os sapatos e arrastou os pés descalços nos grossos grãos de areia escura. Entrou até os calcanhares na água fria e salgada. Abaixou-se, pegou um pouco de água nas mãos em forma de concha e empapou o colarinho, embebendo as brânquias com azul. Levantou-se e mergulhou. Perdeu-se na espuma das ondas. E desapareceu.
“Oto, pára de babar no processo e aponta o lápis pra mim”. As fendas doíam. Já haviam doído outras vezes, mas era só molhá-las...

Sexta-feira, 30 de Maio de 2008

Skillas e o apito inicial

Skill Futebol Feminino. Não vem do inglês skill, que significa habilidade. Até poderia vir, mas não vem. É referente à empresa do pai de uma das jogadoras. Na falta de um nome durante a reunião da comissão técnica, ficou Skill mesmo. Ninguém se opôs, uma vez que ninguém foi. O time se formou no dia em que fecharam as inscrições para o I Campeonato Metropolitano de Futebol Feminino. Foi aí que tudo começou. Primeiro, as meninas tinham que se conhecer. Uma chamou amigas, outra chamou colegas e conhecidas. Conseguiram uma goleira a duras penas. Mas conseguiram. Tinham uma semana para treinar o máximo que podiam para a estréia no campeonato. Estréia contra o time da ex-jogadora Duda, fiel incentivadora das mulheres no futebol. Ela não joga mais há anos, mas formou dois times a fim de conseguir as duas vagas que abrirão para o Estadual, fruto das duas melhores colocações no metropolitano. Duda apostou todas as suas fichas. Meninas que treinam juntas há séculos, que jogam desde pequenas, que ainda são pequenas, que têm pulmões, que jogam em clubes da cidade. Além dos dois Dudas, outros times desconhecidos alimentavam a imaginação das skillas. Como seria o representante francês Rey Sol? O oriundo da segunda divisão Corinthians? O Atlético da Bom Jesus (da Bom Jesus!)? O boêmio Vinícius de Morais? O emissário do zoológico Sapucaiense? O pantera negra Black Show? O soviético CEVI/KRAI? Muitas das participantes do Skill nunca haviam jogado futebol onze, de campo. Muitas ainda não tinham músculos suficientes para fazer com que a bola atravessasse o círculo central. Muitas não tinham o menor referencial das dimensões do gramado. Mas mesmo assim elas apostaram na zebra e treinaram. Encontraram-se no parque Marinha, antro de bêbados e mendigos, durante a noite de uma segunda-feira. Entraram pela primeira vez em um campo de várzea, muito parecido com o que iriam jogar. No entanto, o gramado não existia. “Alguém lembrou de trazer a grama?”, disse uma delas. O único local disponível, de graça, no centro da cidade, possuía um dos piores campos possíveis. Perfeito para uma lesão de joelho. Mas elas seguiram. Apresentaram-se uma a uma. Clarissa, Larissa, Gabrielas, Grasiele, Ariana, Pâmela, Lisie, Fernanda, Giedre, Thais, Rochelle, Évelyn, Carol, Christiane, Julia, Sabrina, Adriana, Marina, Camila, Lauren. Estudantes de educação física, arquitetura, jornalismo, engenharia de minas, publicidade, direito, até uma brigadiana, todas unidas pelo amor à competição e ao futebol. Zagueiras, volantes, meias, laterais, atacantes e até uma goleira. A zebra do campeonato havia se juntado. Uma semana antes do primeiro jogo. Treinaram quatro vezes durante os sete dias que antecediam à estréia. Compraram uniformes esmeraldino-negros, com meiões pretos e chuteiras de travas por 50 reais no Centro. Conseguiram três técnicos. Wilson, Mirim e o outro que ninguém sabe o nome – ele só apareceria no dia do jogo. Wilson é formado em educação física e inicialmente parecia um chato de galocha, daqueles malas que querem mostrar serviço. Porém, durante os treinos, virou o xodó das mães que acompanhavam o time. “Ele é um amor! É muito carinhoso com as gurias”, dizia a genitora cacheada grudada no alambrado do campo suplementar da ESEF – Escola Superior de Educação Física da UFRGS -. Mirim é Guilherme. De 1,60m. Ainda estudante de educação física na PUC. O preparador-físico-sem-nome ficou esquecido pelas meninas, que clamavam pela presença dos dois técnicos de antagônicas estaturas e seus chinesinhos laranjas demarcadores de posições. Nos primeiros treinos, o quorum foi invejável. Em torno de 15 meninas apareceram. Algumas não jogavam há muito tempo, fruto de lesões ou falta de tempo. Algumas não respiravam mais. A reclamação era a ausência das outras seis jogadoras, que haviam esquecido do treino ou simplesmente estavam doentes ou em aula. Mas elas tinham certeza de que no sábado pré-jogo todas compareceriam. Afinal, todas querem jogar. E era nesse dia que os técnicos paradoxais decidiriam o time titular. As meninas treinaram na areia, sem luz, em campos reduzidos, com menos atletas, com bolas murchas, com bolas pesadas, no frio, no calor. Treinaram em todas as condições adversas possíveis. Além do fato de nunca terem jogado juntas, elas ainda enfrentavam o problema da falta de estrutura. Os técnicos tentavam incentivar, falavam que as individualidades eram ótimas, que só faltava ritmo de jogo, cadência, entrosamento, coisas que só ao jogar são arrumadas. No sábado pré-jogo, surpreendentemente, nem todas as meninas apareceram. O treino deu-se a baixo de frio e chuva, em um campo de futebol society. As posições foram definidas. Christianes no gol. Gabrielas na zaga. Clarissas e Laurens nas laterais. Larissas e Giedres de volantes. Évelyns e Sabrinas como meias. Pâmelas e Lisies no ataque. Domingo se aproximava. Era o dia da prova final, do teste. A zagueira direita estava temerosa. Pouco confiante. Não sabia ao certo se conseguiria atuar em um campo tão grande. Ela, além de nunca ter jogado futebol onze, tinha asma. Não tinha medo das adversárias. Tinha medo era de si mesma. A meia esquerda não acreditava em seu futebol. Wilson, o alto, teve que chamá-la e dizer: estou te colocando porque eu tenho confiança em ti. És a melhor da posição, quem vai poder criar no time. Ela não acreditou muito, mas fingiu que sim. A atacante/centroavante tinha receio do joelho. Há oito meses havia rompido os ligamentos. A primeira volante ficara encarregada de proteger a inexperiente defesa, uma vez que era pouco provável que as laterais, após um pique até o ataque, voltassem para ajudar. O time tentava se manter confiante, mas era difícil frente à estréia contra um time entrosado e, principalmente, jovem. A média das jogadoras ficava entre os 15 e 16 anos. A média do Skill era de 21 anos. Mesmo com a pequena lacuna de idade, era notável a diferença do preparo físico. Parecia que a peralvilhas possuíam três pulmões e as idosas, meio. No entanto, era o que tinham no momento. Não havia a possibilidade de brotar células formadoras de órgãos respiratórios novos em folha. Jogariam com garra. E meio pulmão. O domingo havia chegado. Uma a uma foram se reunindo perto do campo onde o jogo anterior acontecia, com quase uma hora de atraso. Devido a isso, elas jogariam ao meio dia. Era um dia seco e quente de abril. No vestiário, as camisetas foram distribuídas. Felizmente, havia reservas para quase todas as posições. O número 16 ficou de fora. Aparentemente, uma macumba do técnico maior. Algumas jogadoras não haviam levado meiões, outras haviam saído na noite anterior e dormiram até tarde. Uma esqueceu por completo do jogo e teve que ser avisada às pressas. Havia jogadoras desconhecidas, que nunca foram em treino algum, que só apareceram para jogar. Desde que fizessem algo em campo, o comparecimento repentino seria perdoado. Tiveram jogadoras que mesmo telefonadas diversas vezes, não atenderam aos chamados e simplesmente não compareceram ao jogo – depois alegaram problemas pessoais -. Mas não havia mais nada a ser feito. Era a hora do jogo. As meninas colocaram suas coisas no banco de reservas e se juntaram em um círculo. Afastaram as pernas e colocaram os pés lado a lado, encostando nas chuteiras das companheiras. Formaram ali um vínculo de cumplicidade e confiança. Sabiam que cada uma ali daria o sangue e o suor pelas outras. A torcida composta por pais e namorados gritava pelas grades enferrujadas que circundavam o campo. O time todo se uniu para a foto inicial, na tradicional posição. Elas tremiam. Colocaram suas caneleiras, prenderam os cabelos. Fizeram preces, alimentaram suas superstições, tomaram os últimos goles de água. O time titular entrou em campo. Cada uma tomou sua posição. Algumas olhavam com receio para o Alto a fim de confirmar seu perímetro de atuação. O nervosismo era grande. Olhavam do juiz para o Mirim, dele para a goleira, dela para as outras, delas para os próprios pés com travas.

Então, o árbitro levou o apito aos lábios.

Segunda-feira, 26 de Maio de 2008

ônibus? numa hora dessas?

Parece que eu exerço uma estranha simpatia nos motoristas e cobradores. Em especial de T1s e T1s Diretos.
Isso é realmente curioso. Não sou uma pessoa simpática. Não ao menos com quem não conheço. Passo muitas vezes a impressão de sisuda e até esnobe. Mas isso não vem ao caso.

Sábado, peguei o colectivo e, ao passar pela roleta, ouvi do cobrador:

"Indo pra aula hoje, loirinha?"

Loirinha? Que bela intimidade com o cobrador das 7h40. Nem a minha mãe me chama assim.

Quando eu chego meio tarde na parada, o motorista pára para mim no sinal e abre a porta. E diz:

"Não acordou hoje, é?"

He... é brincadeira... Ainda tenho que ouvir o motorista do ônibus me cobrando responsabilidade.

Sem contar que, esses dias, ao sair do ônibus, esse mesmo veio falar comigo:

"Resolveu frequentar a aula, é?"

Fazia dias que não ia com o ônibus das 7h25, horário dele. E ele me cobrava as aulas.


É... é da intimadade que se dá o abuso.

Mas eu aguento. Não ha nada melhor que uma conversa e um sorriso mistoso logo no início da manhã.

Domingo, 11 de Maio de 2008

À Dênis Marques, a mãe.

Ednesi dizia que sabia de tudo. Dizia que seu nome tinha sentido (É uma deusa romana!). Sabia tudo do céu, da terra, da água e do mar. Especialmente do mar. Às vezes, parecia que tinha vindo de lá. Dizia saber o nome dos bichos, como chamá-los para perto, o que comiam e onde viviam. Como se não bastasse, dizia saber tudo da condição humana. Sabia por que agiam de certas formas em certas ocasiões. Lia seus pensamentos. Previa ações. Mas um fato. Um simples fato. Na verdade, dois. Dois fatos quebraram Ednesi. Em um dia de chuva, achou dois embrulhos na soleira de uma loja de pneus. Um era azul, da cor do céu, das nuvens e do mar. O outro era vermelho, intempestivo, intenso. Levou os embrulhos para casa. Deixou-os embrulhados por muito tempo. Não tinha coragem de abri-los. Podia haver algo ali que não conhecesse. Poderiam duvidar de seu magnífico conhecimento. Ela mesma poderia duvidar. O marido, de olhos claros e serenos, achou que não valia a pena esperar. Um dia, depois de Ednesi sair para o trabalho, o marido, Wennot (É americano, os pais vieram de Michigan!), foi furtivamente até o quarto e pegou os embrulhos. O coração batia acelerado. A esposa poderia voltar para casa a qualquer momento caso tivesse esquecido alguma coisa. Pegou o embrulho anil primeiro. Trouxe perto do rosto. Descobriu parte do embrulho. Viu dois olhos. Da cor do pano. Que piscava para ele. Espantado, quase deixou cair o embrulho-vivo no chão. Respirou fundo, olhou ao redor para ter certeza de que não estava sonhando ou procurando alguém para confirmar o que acabara de ver. Olho de novo para a parte descoberta do embrulho. Os olhos estavam lá. Sorrindo. Como não haviam notado que havia olhos dentro do embrulho? Tanto tempo, achando que não era nada! Descobriu o resto dos olhos e viu uma espessa cabeleira lisa cor de sol. O embrulho vestia uma roupa de marinheiro. Até então, estava tão entretido com o embrulho anil que não se dera conta de que havia outro embrulho. Olho para cima da cama e viu o outro embrulho. Vermelho. Furioso. Vivo. Olhou com mais calma, de perto, e pode ver que o embrulho se movia quase imperceptivelmente. Sacudia. Como nunca havia percebido isso também? Que inocente... Embebido na sabedoria da esposa, achava que não sabia de nada. Que somente ela sabia. Mas agora ele sabia. Sabia mais que ela. Ednesi nunca havia aberto os embrulhos. Voltando em si, Wennot, com um olho no embrulho azul, se voltou para o vermelho. Com receio, descobriu a mesma parte. Agora os olhos do embrulho-vivo não eram mais azuis. Eram castanhos. Castanhos claros. E não sorriam de volta. Eram de um olhar intenso, penetrante. Que fizeram o marido cobrir o embrulho novamente. Olhou para o ex-embrulho azul. Olhou para o embrulho vermelho. Com cuidado, destapou o resto. Diferente do anil, o vermelho não possuía os cabelos lisos. As melenas caiam em cachos, mas também eram cor de sol. Vestia uma roupa roxa. Tentou morder Wennot com os parcos dentes que tinha. Wennot então se afastou e olhou os dois ex-embrulhos, agora seres. Embevecido com a doçura do que via, não notou que Ednesi chegava. Ela parou na porta, atrás de Wennot. E não disse nada. Sua cara era de terror. Os embrulhos haviam sido descobertos. E ela não sabia o que era aquilo. Foi aí então que se deu conta. Que era bom. Que era bom não saber. Que era bom o novo. Que tinha vontade de descobrir. Chegou mais perto de Wennot, que ficou petrificado com a aproximação da esposa. Chegou perto dos pacotes não mais pacotes. Olhos para os dois seres. Um de aura azul. Outro, de vermelha. Eram tão distintos. Emanavam energias diferentes. E ela teve curiosidade, pela primeira vez. Curiosidade de saber como lidar com a situação. Como cuidaria dos embrulhos, afinal, seu salário de funcionária pública mal dava para sustentar duas bocas. E sorriu. Sorriu em frente ao novo. E abraçou. Os embrulhos, o marido e a idéia. E criou cuidou conheceu aprendeu discordou chorou riu brigou dançou e viveu.

Até hoje.

Sexta-feira, 18 de Abril de 2008

Anatomicamente Estúpidos

Uma aula de anatomia. Várias mesas de metal espalhadas pela sala. O presunto em cima da mesa me fez gelar. Passei pela porta entreaberta e vi aquele corpo estendido na mesa. Estava no celular e passei por ali na maior das inocências, achando que teriam meros ossinhos espalhados pelo local. Ledo engano. Era uma tia. Gelada e pálida, tinha um corte no tórax, com a pele aberta como um livro, os músculos já definhados expostos para os estúpidos alunos. Uma carinha simpática, já sem cabelos, olhos fechados e nariz adunco. Pelada. A tia estava pelada. Devia ter uns 60 anos. Luvei a luva de borracha e comecei a levantar as pelancas velhas da tia. Ela sujava a mesa de gordura morta e amarela. Os estúpidos se apoiavam ali. Os Estúpidos. Eles gritam em torno da tia, mexem nas suas gélidas mãos, tentam abrir seus olhos cansados. Na terça-feira, o jovem professor, ginecologista – eu fico imaginando o tamanho da obsessão para um homem ser ginecologista - consente com a baderna e, resignado, mexe nas vísceras dos outros, sem o menor pudor, mostrando a nós, os Nem-tanto-estúpidos, onde fica o ventrículo, o pâncreas, e todos aqueles órgãos que um dia fizeram dos presuntos mortais. Mortais, porque agora estão mais que mortos. A tia fica paradinha no canto dela, esperando o professor de quinta tocar suas flácidas carnes. Fica conformada com a falta de atenção dos Nem-tanto-estúpidos, que vigiam o Sem-nariz e o Ciborgue. Na quinta-feira, a tia sorri por dentro. Um professor charmoso, do estilo galanteador de presuntos, apalpa sua áurea tez e alisa seu peitoral, abrindo delicadamente seu tórax, mostrando aos Nem-tanto os belos levantadores de escápula que a tia um dia teve.
- Ai, que nojo! Uma barata! grita uma Estúpida loira, mascando aquele estúpido chiclete, com aquele estúpida boca aberta. Essa é uma estúpida que observo desde o primeiro dia de aula – não tenho como fugir disso. Ela saiu nas propagandas na parte de trás dos ônibus, dizendo que passou na UFRGS. Aquela bunda estúpida fica se sacudindo por entre as mesas, tentando os pobres presuntos, que nada podem fazer.
A barata passeia por entre os corpos. (Deveríamos ter aulas com baratas. Elas devem saber muito mais que o ginecologista tossidor – ele dá irritantes tossidas o tempo todo.) Achei uma perna de barata nas costas de um dos presuntos. O coitado morre, é aberto e ainda tem que ficar de bruços, com pernas de baratas entre os rombóides. O professor charmoso pegou a perninha com a pinça, olhou e colocou de novo nas costas do homem. Nem ele tem mais respeito pelos presuntos. Deve dormir com eles.
O clímax da tia é o mês de abril, quando os Estúpidos entram em miologia. É quando ela é o centro das atenções da quinta-feira, sendo a única presunta a estar com os músculos visíveis. É o momento de glória do presunto. Esse pode ser o único momento de glória da tia, em toda a vida pré-presúntica. Me disseram que aqueles presuntinhos eram indigentes. Eu duvido que a tia tenha sido. Deve ter sido madame chique que queria que o corpo ajudasse a ciência. Mal sabia ela que serviria de brinquedo para estúpidos alunos. O professor falou que o Ciborgue doou seu corpo. O Ciborgue é Ciborgue porque tem um braço de titânio. Ele deve ter sido foda. Duvido que tenha sido um indigente. Mendigos não têm braços de titânio. Não deve ser comum nem pessoas não-mendigas terem braços de aço. Eu não tenho.
- Aqui tem o serratil anterior.
- Eu não consigo ver, falou o menino com cara de Jesus.
- Tá aqui, ó. Tu pode ver que é um músculo agonista, digástrico, de insersão fixa.
Dá pra ver na cara dos Estúpidos que eles não têm idéia do que se trata. Acho que é por isso que eles gritam tanto. A loira coloca a caneta na boca e fica girando ela, o tempo todo, com cara de imbecil. Depois se faz de entendida, perguntando pro professor as mais absurdas obviedades. O com cara de Jesus, também chamado de Valdívia, é meio ranhento, e fica sempre puxando o catarro em cima dos cadáveres. É aquele cara de aparelho que não consegue fechar a boca. Ele não fica muito na aula. Fica mais preocupado em incomodar sua Maria Madalena loira com as luvas sujas de vísceras. Tem um outro, que chamam de Gorila. Tem uma tatuagem tosca no braço, mal feita. Tenho pena do Gorila. Não sei se ele nota o quão mal feita a tatuagem dele é. O Gorila não pode ver o Zezinho, o esqueleto da sala, que já pega ele pelo braço cadavérico e sai arrastando suas rodinhas pela sala. É uma mórbida dança que dura dois minutos e depois se encerra, com o Zezinho jogado em um canto e o Gorila achando outras peças para se divertir.
Eu não consigo ficar muito tempo na aula. Principalmente nas terças-feiras. O ginecologista me irrita com sua tossezinha estúpida. Ele sua o tempo todo, em cima dos pulmões da mesa. Encaixei ele nos meus Estúpidos.
- Aaai, meu olho! É muito forte esse cheiro!
(As reclamações de estúpidos começam sempre com um Ai, quando não um Aííí ou um Aiê.)
Lá vem os Estúpidos reclamando do formol. O formol faz arder um pouco os olhos, mas nada que sustente o escarcéu que os Estúpidos fazem. Tem um que leva óculos de natação para proteger os globinhos oculares. Eles tapam o nariz e os olhos com os jalecos e ficam fazendo caretas cada vez que o professor mexe no presunto. A tia não deve mais se importar com o cheiro. Eu também não me importo. Parece que esse cheiro já fazia parte da minha vida. Parece que a gente vive entre presuntos. Tantos mortos-vivos andando pela cidade, sem a menor expressão, e que acabam na mesa, regados a formol. Esse cheiro impregna as ruas. Acho que acabei me acostumando com a podridão da cidade.
- Esse imbecil vai puxar meu mamilo.
- Não grita na minha orelha.
- Larga meu dedo.
Não consigo ouvir, mas sei o que os presuntos pensam. Eu penso por eles. Às vezes, eu acho que eu sou um daqueles presuntos, sendo cutucada por um Estúpido, com todos cheirando a formol ao meu redor, me sentindo apodrecer e vendo que não posso fazer nada, a não ser ficar parada e deixar um babaca tossidor pegar meu coração e fazer de mostruário.

Terça-feira, 15 de Abril de 2008

Abandonei, abandonei.. não nego.
Pago quando puder.

Sexta-feira, 28 de Março de 2008

Minhocão

Entrei no minhocão.
(Adoro andar nas molas do minhocão.)

O cara tinha uma tatuagem de macaco no braço e uma camiseta de macaco. (curioso...como eu tenho gostado desses dois temas.) Vai ver ele não conseguiu ainda se desligar das raízes...

Entrou no corredor de ônibus e mostrei a língua pros carros que seguiram trancados na Oswaldo Aranha. Adoro essas facilidades coletivas.

Muitas pessoas saíram, vários assentos ficaram livres. Um rapaz ficou na junção. Ele era como eu.

Adoro entrar no túnel. Esse sim é outro mundo. Os sons mudam, as cores mudam. Eu me sinto tão bem dentro do túnel...

Caía um toró quando cheguei no Mercado. Por que diabos eu não peguei o guarda-chuva laranja??

Saí do minhocão.
Ah, o minhocão.