segunda-feira, 16 de março de 2009

Segunda

Parece que todos os dias são segunda-feira.
Que não teve final de semana, não vi nem o sábado nem o domingo passarem e já acordei na manhã de segunda, sem ter tido tempo de nada.
Não dormi até tarde, não fui na Redenção, não vi meus amigos ou fiquei com a família. Não aproveitei a noite nem o dia. Mal o vi sol, mal senti o vento, mal me molhei na chuva! Nem bati na quina da cama! Ou bati? Não lembro... já faz tanto tempo. Hoje já é segunda. Hoje ainda é segunda.

Esse tempo tem me feito falta.
Daqui a algum tempo, esse tempo vai fazer é uma falta danada.
Eu sei.

terça-feira, 3 de março de 2009

Já faz horas que não visito esse lugar. Que antes me era tão conhecido e aconchegante. Confortante.
E que agora virou sótão com lençóis brancos por cima dos móveis e poeira espalhada pelo chão. Fazia tempo que não me via assim.
Sozinha. Não só.
Já se vão anos que a companhia de outros me faz companhia.
Agora tenho a mim para me acompanhar.
Coração leve. Solto. Calmo. Aberto. Feliz.
Cheio.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Mini

Posso dizer que nunca fui pequena. Uma criança que nasce com 4 kg não pode ser considerada um bebê de gente. Era mais para um repolho.

Aí cresci mais.

Sempre fui uma das maiores da turma. Pé-de-princesa tamanho 38. Ombros largos por causa da natação desde o nascimento. Pernas e braços compridos. 1,70 de altura e mãos de pianista.

Aí cresci mais.

Aí cresci por dentro.
Aí virei eu.
Aí, vi que valia a pena.
Aí deu.
Nunca achei que fosse ter olheiras.
Não sou insone ou boemia.
Elas agora me perseguem.
Para onde quer que eu mire,
sinto o peso da responsabilidade no olhar.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Stand by.

(em tom de desabafo)

Me mantive por muito tempo em espera. Em stand by. Com a luzinha vermelha piscando. Sem a menor vontade de movimentação. Física e mental.

Aí me veio aquele velho e conhecido estalo. De que era preciso fazer alguma coisa ou não ia dar certo. Já vinha passando por um momento muito complicado. Nunca achei que pudesse me estressar. Pra mim, isso é coisa ou de gente chique ou de frequentador de terapeuta ou de workaholic.
Ou seja, não o meu caso.

Precisava me mexer. Sacodir o tapete para conseguir colocar a casa em ordem.

Comecei cortando cabelo. Puxei de um lado para o outro na pia do banheiro e picotei. Picotei afu. Cortei de cima pra baixo, de um lado para o outro, sorrindo ao ver cada melena cair com gosto na toalha estendida no balcão de mármore. Me olhei no espelho. Ainda era eu, vou ser sempre eu, mas com um ar mais leve.

Voltei para a musculação. Precisava recuperar meu ânimo, meu fôlego, meu corpo. Precisava redescobrir certos músculos que tinha esquecido que existiam. Precisava me sentir bem. Não importava o que os outros diziam. Queria me olhar e me reconhecer.

Deixei de me importar tanto. Cansei de me incomodar e me estressar com o trabalho, as aulas e as pessoas.

Passei a festejar mais as coisas. Coisas. O chão, o vento, o sol, a flor, a cama. Coisas mesmo. Tentar me focar no meu amor não só por quens, mas também por quês. Tentei ouvir a minha tia, que tanto festeja tudo.

Comecei também a levar mais em conta o meu amor pelas pessoas. Amigos, namorado, família, desconhecidos. Nunca fui muito emotiva, sentimental ou amorosa. Como já disse anteriormente, não consigo abraçar com os dois braços. Mas venho tentando transmitir meus sentimentos.

Já consigo me sentir melhor. Seja pelo cabelo novo, pelo biceps que teima em reaparecer ou por aqueles a quem consegui demostramar.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Ela.

Tenho tentado me convencer de certas coisas.
Por exemplo?
De que há a remota possibilidade
De eu ser mulher.
(Não. A sexualidade não está em questão.)

Ela sempre foi cheirosa
Ela sempre teve cabelos bem tratados
Ela sempre usou batom
Ela sempre foi séria
Ela sempre usou salto
Ela sempre sorriu delicadamente
Ela sempre vestiu roupas justas e alegres
Ela sempre falou de coisas interessantes
Ela sempre exalou charme
Ela sempre caminhou flutuando
Ela sempre usou brincos, colares e pulseiras
Ela sempre teve gestos leves
Ela sempre atraiu atenções
Ela sempre foi comedida
Ela sempre foi ela.

Mas, agora...
Já não sei mais.
Não sei se eu,
mesmo sendo o oposto,
o contrário, o reflexo,
não posso ser ela.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Cidadão de Papelão

(O Teatro Mágico)
O cara que catava papelão pediu
Um pingado quente, em maus lençóis, nem voz
Nem terno, nem tampouco ternura
À margem de toda rua, sem identificação, sei não
Um homem de pedra, de pó, de pé no chão
De pé na cova, sem vocação, sem convicção
À margem de toda candura
À margem de toda candura
Cria a dor, cria e atura
Cria a dor, cria e atura
Um cara, um papo, um sopapo, um papelão
O cara que catava papelão pediu
Um pingado quente, em maus lençóis, à sós
Nem farda, sem tampouco fartura
Sem papel, sem assinatura
Se reciclando vai, se vai
À margem de toda candura
À margem de toda candura
Não habita, se habitua
Não habita, se habitua
Homem de pedra, de pó, de pé no chão

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Se vá.

É de lágrima que meu coração se vai.
Vai em partes para cada lado. Se divide em pequenos pedaços de amor.
Uns pedaços voltam logo para casa. Outros, não. Eles ficam ainda longe por ainda tempos.
E se vão os braços, os cabelos, os olhos, as roupas e, por que não, o coração.
Corações já pequenininhos de saudade, expremidos até doer.
Doer de quem amanhã já chega,
Doer daqueles que foram e não sabem se um dia voltam,
Doer daqueles que se deixaram ir.
Todas estas minhas.
Eu, dolorida.
Dormente.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Tenho um perseguidor.

Uma sombra. Que me segue a todo lugar que vou.
Sombra de carne e ossos e suiças e barba rala.
Entro em pânico quando noto a presença dele.
Porque ele me segue. Incessantemente.

Encontro-o entre 40 mil pessoas. Duas vezes.
Sempre, na parada do ônibus.
No shopping, no supermercado, no hospital,
na rua, no bar, no bar, na rua de novo.

Esses dias, descobri seu nome. E tentei não esquecer.
Parece que ele queria que eu soubesse
Sentou atrás de mim no ônibus
e, falando ao celular, soletrou.
S-O-L-E-T-R-O-U
Para mim.

Já achei diversas ligações entre nós
E já não sei mais
quem persegue quem.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Ogra.

Não adianta. Eu não tenho o jeito da coisa.

Não sou meiga. Não sou fofucha. Muito menos um amor.
Não consigo usar o abre-e-fecha fácil da Lacta.
Não sei abrir nem Halls nem Clube Social pela listrinha vermelha.
Não consigo beber nada sem me derrubar.

Só como carne mugindo e fugindo de mim.
Sou zagueira.

Não tenho paciência para o telefone.
Não consigo dar explicações sem trincar os dentes.
Não tiro os nós dos sapatos.
Não uso roupas passadas.

Acordo e ponho as mesmas meias de ontem.
Escovo os dentes com vigor.

Não penteio os cabelos há quatro anos.
Não sei me maquiar.
Não uso cores vivas.
Não dou abraços com os dois braços.

Meu namorado reclama que eu só machuco ele.
Estralo os dedos sem parar.

As vezes acho que fui encontrada em uma gruta,
em meio a ossos e pedras.
Eu, a menina ogra.